Tirei o dia pra não fazer nada por mim. Fui ao mercado, porque a família estava precisando ser abastecida. Eu mesma não tava precisando de nada. Na saída estacionei meu carrinho ao lado do caixa preferencial para idosos, gestantes e deficientes. Um casal de velhinhos estava nesse caixa preferencial tirando as compras do carrinho quando notei o enorme esforço do velhinho para tirar uma garrafa de água de cinco litros da parte de baixo. Larguei meu carrinho no outro caixa e fui até ele, me agachei tirando a garrafa ali de baixo e suspendendo até a esteira. – Tá apressadinha, é? Então vai noutro caixa! Não tá vendo que aqui é pra idosos, minha filha? Nem precisa dizer que se a velhinha da mulher dele não fosse uma velhinha eu tinha subido no pescoço dela. O velhinho ficou com aquela cara de ai, minha filha, ela mandou a vida inteira em mim não é agora que vou fazer uma tempestade numa garrafa d´água. Voltei pra minha fila e aguardei minha vez. Passei as compras e conferi a notinha. – Moça, a conta tá errada. A caixa me devorou viva, olhando a longa fila que se fazia atrás de mim. – Que que é dona, que que tá errado aí? – Você passou o vinho só uma vez, e eu tô levando duas garrafas. Eu nem teria notado que sua sobrancelha era uma perigosa taturana daquelas que esturricam os dedos do pé da gente caso ela não tivesse erguido tanto a bichinha. – Pois é, moça, parece piada, mas eu tô falando que você esqueceu de computar mais uma garrafa aí nessa registradora e se eu não fosse sincera a grana ia sair do seu bolso no fim do dia. Não vai nem me agradecer por isso? Silêncio geral na nação. Nem um a.
E não foi só a taturana dela que ficou estampada lá no alto da testa não. A fila toda olhou desconfiada. Devia mais é ter saído sem falar nada. Mas como podia?, se era o dia escolhido pra não fazer nada por mim, só pelos outros? Cheguei em casa, despenquei as compras na pia e resolvi tomar um ar. Fui andar pelas ruas, eis que um moço à minha frente tirou um lenço do bolso de trás da calça e uma pequena carteira caiu. Corri até ele, peguei a carteira da calçada e quando fui entregar a bendita, ele se virou achando que eu tava tirando do bolso dele. Minha nossa senhora! Foi um fuzuê! Por pouco o mal-agradecido não chama a polícia! Virei as costas e resolvi voltar pra casa já que tava difícil mesmo fazer algo por alguém.
– Vou cuidar é de mim, pensei. Corri pra atravessar a rua antes que uma perua me pegasse de frente. Da perua eu desviei, mas não vi a moto que vinha na paralela. Fiz um zig-zag tentando escapar, mas a moto me arremessou longe, depois o motoqueiro caiu e se espatifou na sarjeta. Eu, ao contrário, não sofri nem um arranhão. Mais que depressa levantei e fui até ele, socorrê-lo. Olhei pro moço e deu dó, todo ensangüentado, da cabeça aos pés. Quando me viu abriu um dos olhos. Agachei em direção a ele que conseguiu com um esforço danado estender sua mão esquerda até mim. – Ufa, rapaz!, você tá vivo?!...Segurei o braço dele, respirei, e em seguida larguei, deixando cair pesadamente sobre o asfalto. – Tomara que agora venha uma jamanta bem carregada e passe em cima de você três vezes pra frente e pra trás até te esmigalhar em mil pedacinhos, cretino. Fui pra casa leve como uma pluma.
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Meu pequeno Joaquim
Sei bem de onde vem esse meu desejo de ter um pequeno zoológico em casa. Ahhh..se eu pudesse! Tudo começou no quintal lá de casa. No Tatuapé. Como toda criança, eu era louca por um cachorrinho. Mas até chegar o bendito dia de convencer meu pai a termos um cão em casa fui ganhando outros animaizinhos como paliativo. Vieram os peixinhos de aquário, depois as tartarugas, os coelhinhos, mas a felicidade bateu mesmo à minha porta quando entrou o Joaquim. Que coisinha linda era aquele pintinho. Tão pequenino, tão menino, tão Joaquim. Não tive dúvidas de que o nome daquela criaturinha amarela seria esse.
Joaquim entrou no meu quintal e na minha vida de menina solitária. Sim, eu tinha mais quatro irmãos, mas todos já estavam com a cabeça nos livros, nos Beatles, nas namoradas. Eram bem mais velhos do que eu. Quando meus primos da minha idade não iam lá pra casa passar as tardes comigo, lá ia eu me refugiar no meu pequeno zôo.
Joaquim era o anfitrião do petit comitê. Era o rei dos meus animais. Parecia entender tão bem as tartarugas, os coelhos, os peixes. Como era inteligente o bichinho! Agora, o grande amor da vida dele, modéstia à parte, era eu. Pra onde eu ia aquele toquinho de gente, - claro, pra mim ele era como alguém da família – ia atrás de mim. Era tão engraçado porque parecia meu rabo. Tanto eu gostava dele correndo atrás de mim pelas calçadas que fazia ziguizagues pra ver ele de um lado pro outro que nem um louco. Como ele ficava tonto!
Um dia ele cresceu. E - quase que pra minha morte precoce - virou almoço.
Minha querida vó Ana nasceu em Portugal, Trás os Montes, obviamente, pra ela que viveu naquele remoto vilarejo, frango em casa era sinônimo de comida. Eu era pequena, ainda não sabia dessas coisas de costumes e culturas. Infelizmente só vim a saber quando ouvi qual era o cardápio do dia. Não, não fique com dó de mim, não. Esse foi apenas o primeiro dos assassinatos domésticos da serial-killer da minha vó. Depois vieram as tartarugas.
Uma delas, a que vivia na terra, fui encontrar morta na lata do lixo quando levei um saquinho com sobras do almoço que minha mãe pediu pra despejar. Vejam como a psicologia infantil do tipo “aos trancos e barrancos” passa rápido de mãe pra filha! Pelo menos, apesar do susto, e da forma trágica como tomei conhecimento do óbito, não tive que comer carne de tartaruga.
Os coelhinhos, que tinham nome e tudo, também tiveram seu papel gastronômico naquela casa. Depois do Joaquim, eram os dois que tinham suas próprias casinhas dentro do meu coração. Quando chegava da escola, depois da morte do Joaquim, eu jogava os cadernos no sofá e corria pra vê-los no quintal. Aqueles chumaços de algodão branco com aqueles olhinhos carentes e vermelhinhos me derretiam por dentro. Tá certo que eles acabaram com as ervas, temperos e chás que a vó Ana tinha plantado com tanto apreço e que eram ingredientes fundamentais nas suas gigantescas panelas. Não deu outra, foram pros caldeirões cozinhar junto com os poucos louros e cebolinhas que restaram da pequena horta.
Agora eu sei o que você vai me perguntar: se eu comi carne de cachorro? Por incrível que pareça aprendi precocemente nas ruas que cachorro-quente nada tinha a ver com carne de cachorro. E as duas cadelas que tive passaram em casa como um relâmpago. Meu querido pai deu um jeito de enxotar em tempo recorde. Literalmente da noite pro dia. Ou você acha que ele tinha mudado de ideia sobre aturar latidos e pisar em cocos? Bem, voltando às especiarias preparadas com tanto esmero lá na cozinha de casa, nem tartaruga, nem coelho, nem cachorro. A única coisa que continuei comendo foi frango, embora não o Joaquim, de jeito nenhum. Acho que porque já estava acostumada a comer aves antes dele ser abatido. E assim termina a triste trajetória de minha infância com os animais. Lembranças um pouco cruéis, mas que hoje se fazem tão doces em minhas memórias de menina.
Joaquim entrou no meu quintal e na minha vida de menina solitária. Sim, eu tinha mais quatro irmãos, mas todos já estavam com a cabeça nos livros, nos Beatles, nas namoradas. Eram bem mais velhos do que eu. Quando meus primos da minha idade não iam lá pra casa passar as tardes comigo, lá ia eu me refugiar no meu pequeno zôo.
Joaquim era o anfitrião do petit comitê. Era o rei dos meus animais. Parecia entender tão bem as tartarugas, os coelhos, os peixes. Como era inteligente o bichinho! Agora, o grande amor da vida dele, modéstia à parte, era eu. Pra onde eu ia aquele toquinho de gente, - claro, pra mim ele era como alguém da família – ia atrás de mim. Era tão engraçado porque parecia meu rabo. Tanto eu gostava dele correndo atrás de mim pelas calçadas que fazia ziguizagues pra ver ele de um lado pro outro que nem um louco. Como ele ficava tonto!
Um dia ele cresceu. E - quase que pra minha morte precoce - virou almoço.
Minha querida vó Ana nasceu em Portugal, Trás os Montes, obviamente, pra ela que viveu naquele remoto vilarejo, frango em casa era sinônimo de comida. Eu era pequena, ainda não sabia dessas coisas de costumes e culturas. Infelizmente só vim a saber quando ouvi qual era o cardápio do dia. Não, não fique com dó de mim, não. Esse foi apenas o primeiro dos assassinatos domésticos da serial-killer da minha vó. Depois vieram as tartarugas.
Uma delas, a que vivia na terra, fui encontrar morta na lata do lixo quando levei um saquinho com sobras do almoço que minha mãe pediu pra despejar. Vejam como a psicologia infantil do tipo “aos trancos e barrancos” passa rápido de mãe pra filha! Pelo menos, apesar do susto, e da forma trágica como tomei conhecimento do óbito, não tive que comer carne de tartaruga.
Os coelhinhos, que tinham nome e tudo, também tiveram seu papel gastronômico naquela casa. Depois do Joaquim, eram os dois que tinham suas próprias casinhas dentro do meu coração. Quando chegava da escola, depois da morte do Joaquim, eu jogava os cadernos no sofá e corria pra vê-los no quintal. Aqueles chumaços de algodão branco com aqueles olhinhos carentes e vermelhinhos me derretiam por dentro. Tá certo que eles acabaram com as ervas, temperos e chás que a vó Ana tinha plantado com tanto apreço e que eram ingredientes fundamentais nas suas gigantescas panelas. Não deu outra, foram pros caldeirões cozinhar junto com os poucos louros e cebolinhas que restaram da pequena horta.
Agora eu sei o que você vai me perguntar: se eu comi carne de cachorro? Por incrível que pareça aprendi precocemente nas ruas que cachorro-quente nada tinha a ver com carne de cachorro. E as duas cadelas que tive passaram em casa como um relâmpago. Meu querido pai deu um jeito de enxotar em tempo recorde. Literalmente da noite pro dia. Ou você acha que ele tinha mudado de ideia sobre aturar latidos e pisar em cocos? Bem, voltando às especiarias preparadas com tanto esmero lá na cozinha de casa, nem tartaruga, nem coelho, nem cachorro. A única coisa que continuei comendo foi frango, embora não o Joaquim, de jeito nenhum. Acho que porque já estava acostumada a comer aves antes dele ser abatido. E assim termina a triste trajetória de minha infância com os animais. Lembranças um pouco cruéis, mas que hoje se fazem tão doces em minhas memórias de menina.
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Alma imoral
Ontem, depois que saí da peça a Alma Imoral que, entre outras coisas lancinantes, cita também uma judia-budista, uma interrogação que vive perseguindo meus pensamentos me pegou pelos ombros, me sacudindo novamente. Por quê? Por que não? Várias vezes me pego entre o porquê e o porquê não. E quando o assunto é religião, mais ainda. E essa minha questão insistente e atormentante é simples: por que temos que escolher apenas uma religião? Por que quando escolhemos uma temos que abandonar a outra, ou as outras? Por que devemos nos tornar ex-católicos para nos tornar autênticos espíritas?
A peça me fez refletir mais uma vez e creio que a minha resposta é sim, posso. Para mim o maniqueísmo religioso nunca fez o menor sentido. Posso sim ser budista e à noite rezar o Pai Nosso. Estarei entre o bem e o mal? Entre a cruz e a espada?
Lembro de uma passagem que me marcou quando ainda adolescente. A mãe da minha professora de balé, uma senhora cem por cento budista, me disse um dia: “tadinho de Cristo, foi um bom homem, tinha boas intenções, mas não deu certo”. Quer dizer então que pra adorar Buda é preciso negar Jesus?! Por que não adorar um, ou pelo menos admirá-los cada um a seu modo? Quer dizer então que quem é fanático pelos Beatles não pode ser fanático também pelos Rolling Stones? E o pior é que a sociedade cobra. Ahh se cobra! Experimenta dizer que você é um crente-muçulmano. Vão te torturar. Até você se definir. Como se o mix não fosse uma espécie de definição. Querem te culpar por ser espiritualmente eclético. É como a opção sexual. Ninguém acredita no bi.
Pra mim Deus deve se divertir muito com essa moral humana. São tantos intermediários em nome Dele que deve ser difícil fechar um contrato de fé. Prefiro ficar com uma verdade, se é que é preciso escolher uma só: de que a alma realmente não se apega a essas moralidades mundanas. De que alma, esta sim, tem fé.
A peça me fez refletir mais uma vez e creio que a minha resposta é sim, posso. Para mim o maniqueísmo religioso nunca fez o menor sentido. Posso sim ser budista e à noite rezar o Pai Nosso. Estarei entre o bem e o mal? Entre a cruz e a espada?
Lembro de uma passagem que me marcou quando ainda adolescente. A mãe da minha professora de balé, uma senhora cem por cento budista, me disse um dia: “tadinho de Cristo, foi um bom homem, tinha boas intenções, mas não deu certo”. Quer dizer então que pra adorar Buda é preciso negar Jesus?! Por que não adorar um, ou pelo menos admirá-los cada um a seu modo? Quer dizer então que quem é fanático pelos Beatles não pode ser fanático também pelos Rolling Stones? E o pior é que a sociedade cobra. Ahh se cobra! Experimenta dizer que você é um crente-muçulmano. Vão te torturar. Até você se definir. Como se o mix não fosse uma espécie de definição. Querem te culpar por ser espiritualmente eclético. É como a opção sexual. Ninguém acredita no bi.
Pra mim Deus deve se divertir muito com essa moral humana. São tantos intermediários em nome Dele que deve ser difícil fechar um contrato de fé. Prefiro ficar com uma verdade, se é que é preciso escolher uma só: de que a alma realmente não se apega a essas moralidades mundanas. De que alma, esta sim, tem fé.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Desaquecimento global
Vira e mexe converso com alguém sobre o aquecimento global. E a impressão que dá é que esse assunto causa outro tipo de aquecimento. Do sangue.
Hoje mesmo vi a brasileira que fez as esculturas de homens-gelo na Alemanha, mas, quer saber minha opinião? As pessoas definitivamente não querem tocar nesse assunto. Comece a falar pra você ver como um iceberg logo se monta a sua frente e depois vai despencando aos poucos até derreter toda a conversa. A gente fica parecendo aqueles chatos de carteirinha que querem te convencer que o Lula é um dos melhores presidentes ou aqueles que querem te convencer do contrário, que ele é dos piores. Tanto faz pra que lado você encaminhe a história. De um jeito ou de outro você faz o papel de chato-fundamentalista.
O aquecimento global inflama os ânimos do mesmo jeito, mas em vez do papo pegar fogo como pega quando é política, o papo esvazia de vez. E se essa mesma pessoa vir você no dia seguinte..humm.. pode apostar, cara, ela vai atravessar a calçada, fingir que não te viu e o escambal.
O povo que habita esse globo, nós, os globalizados, não costuma acreditar naquilo que não vê. Afinal, somos da terra de Santomé! Tá aí todo mundo fazendo de conta que é pura ficção científica. Coisas do Partido Verde. Eu bem que queria que fosse!
Aquecimento global é assunto de minoria. A maioria continua consumindo, consumindo, consumindo, tanto quanto antes ou talvez até mais pra aplacar essa chama escaldante que causa um certo incomodo. E quando enfim parece que o tal assunto evaporou de vez das rodinhas, lá vem o ecochato amigo antenado que quer salvar o planeta numa conversa de botequim.
É óbvio que as pessoas continuam tomando banhos demorados. Quanto mais o assunto vem ao encontro delas, mais precisam relaxar, entende? Ficam horas e mais horas debaixo da refrescante queda d´água. Sem contar o efeito calmante do som da água escorrendo pelo ralo. Ops, olhando por esse prisma o efeito estufa tá causando um efeito colateral danado!
Papo vem, papo vai e nada sai do lugar, a não ser as árvores da Amazônia que viajam de caminhão todo santo dia. Esse, coitado, é outro assunto que parece inflamar e esquentar sangues e bate-papos, mas que na verdade desaquecemos num instantinho também. Nós globais já estamos pra lá de conformados com todo o tipo de violência, seja ela vermelha, seja verde. Uma tragédia social aqui, outra ambiental ali. Acho que a gente só vai se dar conta quando as chamas baterem na...bem, você sabe onde. E a cada dia que a temperatura sobe eu só me pergunto uma coisa: pra onde a gente vai correr quando o circo realmente pegar fogo?
Hoje mesmo vi a brasileira que fez as esculturas de homens-gelo na Alemanha, mas, quer saber minha opinião? As pessoas definitivamente não querem tocar nesse assunto. Comece a falar pra você ver como um iceberg logo se monta a sua frente e depois vai despencando aos poucos até derreter toda a conversa. A gente fica parecendo aqueles chatos de carteirinha que querem te convencer que o Lula é um dos melhores presidentes ou aqueles que querem te convencer do contrário, que ele é dos piores. Tanto faz pra que lado você encaminhe a história. De um jeito ou de outro você faz o papel de chato-fundamentalista.
O aquecimento global inflama os ânimos do mesmo jeito, mas em vez do papo pegar fogo como pega quando é política, o papo esvazia de vez. E se essa mesma pessoa vir você no dia seguinte..humm.. pode apostar, cara, ela vai atravessar a calçada, fingir que não te viu e o escambal.
O povo que habita esse globo, nós, os globalizados, não costuma acreditar naquilo que não vê. Afinal, somos da terra de Santomé! Tá aí todo mundo fazendo de conta que é pura ficção científica. Coisas do Partido Verde. Eu bem que queria que fosse!
Aquecimento global é assunto de minoria. A maioria continua consumindo, consumindo, consumindo, tanto quanto antes ou talvez até mais pra aplacar essa chama escaldante que causa um certo incomodo. E quando enfim parece que o tal assunto evaporou de vez das rodinhas, lá vem o ecochato amigo antenado que quer salvar o planeta numa conversa de botequim.
É óbvio que as pessoas continuam tomando banhos demorados. Quanto mais o assunto vem ao encontro delas, mais precisam relaxar, entende? Ficam horas e mais horas debaixo da refrescante queda d´água. Sem contar o efeito calmante do som da água escorrendo pelo ralo. Ops, olhando por esse prisma o efeito estufa tá causando um efeito colateral danado!
Papo vem, papo vai e nada sai do lugar, a não ser as árvores da Amazônia que viajam de caminhão todo santo dia. Esse, coitado, é outro assunto que parece inflamar e esquentar sangues e bate-papos, mas que na verdade desaquecemos num instantinho também. Nós globais já estamos pra lá de conformados com todo o tipo de violência, seja ela vermelha, seja verde. Uma tragédia social aqui, outra ambiental ali. Acho que a gente só vai se dar conta quando as chamas baterem na...bem, você sabe onde. E a cada dia que a temperatura sobe eu só me pergunto uma coisa: pra onde a gente vai correr quando o circo realmente pegar fogo?
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Replay
Esse mundo dos avançados recursos tecnológicos é incrível mesmo. Em pensar que há poucas décadas quem não tivesse visto a fórmula um ao vivo não teria visto a vitória do Rubinho. Ainda bem que inventaram o replay. Ontem à noite tive o grande prazer de redescobrir o valor dessa grande invenção. Depois de tantas outras tão impactantes como a internet e seus twitters, a gente acaba se esquecendo de algumas maravilhas do século vinte. A edição de imagens e o replay, por exemplo, são recursos bárbaros! Fiquei grudada no compacto da globonews só pra ver o final da corrida. Confesso que me deu um frio na barriga durante todo o replay, porque é tão raro ver o Rubinho vencer, mas tão raro, que eu fiquei com medo do final ter mudado. Não via a hora de o compacto terminar e ver que aquela notícia inacreditável que os portais informaram durante o dia era mesmo verdade.
E foi, ufa!
Depois de tamanho alívio, dei uma pulada de canais e parei no irritando Fernanda Young, já que eu não tinha mesmo ficado irritada com o fim da corrida. Mas, por incrível que pareça, em vez de me irritar, me deixou relax da vida. Afinal, aquela outra maravilha do universo tecnológico - o adaptador pra high definition - ainda não foi instalado na nossa tevê plana.....e pelo visto eu nem vou querer que instalem. Você já viu como as imagens exibidas em tela cheia deixam as gostosonas todas distorcidas? A Young, a Paes, a Angélica, a Poeta e a Sangalo com brações, colões, popozões, cinturões....ahhh...essas imagens distorcidas dão um alívio tão grande na gente que tá do lado de cá da tevê sentada na vida real! Bem que a playboy podia ser feita só com fotos em grande angular!
E por falar em telas planas cheias e distorcidas, continuo cada vez mais pasma com os inimagináveis avanços desses recursos todos. Sim, porque soube que telas planas dos micros de centenas de crianças de cinco aninhos de idade estavam sendo preenchidas com lições atrasadas devido às férias escolares prorrogadas pela gripe A. Ahhh....faça-me o favor! Crianças de cinco anos precisam repor o prejuízo ficando diante da internet nas horas vagas?! Estamos na Era dos avanços ou dos retrocessos? Se bem que, olhando pelo lado bom das coisas, pelo menos me sinto um pouco mais confortável em ver que não é só a minha tevê que tem tantas distorções. Ou será que são os meus óculos que estão com suas telinhas tão distorcidas e embaçadas?
E foi, ufa!
Depois de tamanho alívio, dei uma pulada de canais e parei no irritando Fernanda Young, já que eu não tinha mesmo ficado irritada com o fim da corrida. Mas, por incrível que pareça, em vez de me irritar, me deixou relax da vida. Afinal, aquela outra maravilha do universo tecnológico - o adaptador pra high definition - ainda não foi instalado na nossa tevê plana.....e pelo visto eu nem vou querer que instalem. Você já viu como as imagens exibidas em tela cheia deixam as gostosonas todas distorcidas? A Young, a Paes, a Angélica, a Poeta e a Sangalo com brações, colões, popozões, cinturões....ahhh...essas imagens distorcidas dão um alívio tão grande na gente que tá do lado de cá da tevê sentada na vida real! Bem que a playboy podia ser feita só com fotos em grande angular!
E por falar em telas planas cheias e distorcidas, continuo cada vez mais pasma com os inimagináveis avanços desses recursos todos. Sim, porque soube que telas planas dos micros de centenas de crianças de cinco aninhos de idade estavam sendo preenchidas com lições atrasadas devido às férias escolares prorrogadas pela gripe A. Ahhh....faça-me o favor! Crianças de cinco anos precisam repor o prejuízo ficando diante da internet nas horas vagas?! Estamos na Era dos avanços ou dos retrocessos? Se bem que, olhando pelo lado bom das coisas, pelo menos me sinto um pouco mais confortável em ver que não é só a minha tevê que tem tantas distorções. Ou será que são os meus óculos que estão com suas telinhas tão distorcidas e embaçadas?
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Suininha básica
Já que estou com gripe, vou aproveitar pra ficar em casa e escrever. Claro! Porque depois da gripe suína, qualquer espirrinho à toa já olham pra gente com cara de socoooorro...tem uma assassina do meu lado. Mais interessante ainda é que os beijinhos habituais pra cumprimentar viraram encontros de bochechas amigas, sem nenhum tiquinho de baba pra esticar a conversa. Descobri cada bochecha dura que antes pareciam tão fofinhas! E depois do aperto de mão, adivinha, lá vem o álcool-gel entrando em ação. Esse vidrinho tá dando mais ibope do que os perfumes de bolso. Já experimentou ir à farmácia pra comprar um? Tem que entrar pra fila de espera! Bem, se outro dia eu soube que uma bolsa da Louis Vuitton no valor de vinte e três mil reais estava em lista de espera, por que um mero vidrinho de dez reais não estaria? É por uma questão de vida ou morte também. E pelo menos o tamanho da bolsa dá até pra carregar um vidro um pouquinho maior, álcool-gel tamanho família. Quem sabe logo logo não lançam um de grife. Ia dar o que falar nas colunas sociais. Afinal tem socialite à beça pra desinfetar!
Sem contar a função social que a gripe está tendo. Renovou o papo das rodinhas, pelo menos nos elevadores as pessoas deixaram um pouco de lado a profissão de meteorologistas e passaram a ser infectologistas. " – Viu só, mais de um milhão já foram infectados só em São Paulo!!!...é que ninguém quer fazer alarde". Ora, essa é nova pra mim, porque se tem uma coisa que fazem alarde mesmo sem ser caso de alarde é desgraça. Tem a tevê-desgraça, a rádio-desgraça, a revista-desgraça, o portal-desgraça, jornais-desgraça, esses então não dá pra escolher entre tantos títulos. Agora eu te pergunto: você acredita que se realmente a coisa está tão preta a mídia ia pintar de azul-calcinha? Bem, eu resolvi não encanar muito não, vou levar a vida normalmente. Só espera um pouquinho aí que o zelador veio me trazer uma correspondência e eu vou chegar até o banheiro pra lavar a mão. Mas é rapidinho, não sai daí, hein.
Sem contar a função social que a gripe está tendo. Renovou o papo das rodinhas, pelo menos nos elevadores as pessoas deixaram um pouco de lado a profissão de meteorologistas e passaram a ser infectologistas. " – Viu só, mais de um milhão já foram infectados só em São Paulo!!!...é que ninguém quer fazer alarde". Ora, essa é nova pra mim, porque se tem uma coisa que fazem alarde mesmo sem ser caso de alarde é desgraça. Tem a tevê-desgraça, a rádio-desgraça, a revista-desgraça, o portal-desgraça, jornais-desgraça, esses então não dá pra escolher entre tantos títulos. Agora eu te pergunto: você acredita que se realmente a coisa está tão preta a mídia ia pintar de azul-calcinha? Bem, eu resolvi não encanar muito não, vou levar a vida normalmente. Só espera um pouquinho aí que o zelador veio me trazer uma correspondência e eu vou chegar até o banheiro pra lavar a mão. Mas é rapidinho, não sai daí, hein.
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
Última vez
Decidi. Nunca mais vou escrever.
Toda vez que começo escrever perco aos poucos a minha memória.
No segundo parágrafo já não lembro quem sou.
Da última vez que comecei a escrever lembro de poucos detalhes. Havia uma igreja, um padre, um confessionário. Lembro de um guardanapo me dado pelo padre. Lembro também de uma caneta que ele me deu. A tinta me chamou a atenção: era vermelho sangue.
Uma lágrima correu sobre minha face rubra. O padre também ficou com as maçãs do rosto rubras, fechou os olhos ao ler a primeira frase que eu havia escrito.
O guardanapo se transformou em cor de vinho, denso, forte, diria que era vinho de garrafão envelhecido há anos no carvalho.
Algo era muito importante, sei, mas não me lembro mais quem eu era...
Seria eu a moça ou o padre?
No dia seguinte àquele abri os jornais e vi a manchete de que uma moça se encontrava degolada dentro de uma igreja. Ela estava nua e banhada de sangue dentro de um confessionário. O padre fora preso com um guardanapo todo ensanguentado que havia escondido no interior de sua batina.
Fechei rapidamente o jornal e pensei: quem era aquela moça? Haveria alguém se fazendo passar por mim? E eu, quem sou? Você tem alguma ideia? Se souber, por favor, diga, escreva... porque eu, eu já não posso.
Toda vez que começo escrever perco aos poucos a minha memória.
No segundo parágrafo já não lembro quem sou.
Da última vez que comecei a escrever lembro de poucos detalhes. Havia uma igreja, um padre, um confessionário. Lembro de um guardanapo me dado pelo padre. Lembro também de uma caneta que ele me deu. A tinta me chamou a atenção: era vermelho sangue.
Uma lágrima correu sobre minha face rubra. O padre também ficou com as maçãs do rosto rubras, fechou os olhos ao ler a primeira frase que eu havia escrito.
O guardanapo se transformou em cor de vinho, denso, forte, diria que era vinho de garrafão envelhecido há anos no carvalho.
Algo era muito importante, sei, mas não me lembro mais quem eu era...
Seria eu a moça ou o padre?
No dia seguinte àquele abri os jornais e vi a manchete de que uma moça se encontrava degolada dentro de uma igreja. Ela estava nua e banhada de sangue dentro de um confessionário. O padre fora preso com um guardanapo todo ensanguentado que havia escondido no interior de sua batina.
Fechei rapidamente o jornal e pensei: quem era aquela moça? Haveria alguém se fazendo passar por mim? E eu, quem sou? Você tem alguma ideia? Se souber, por favor, diga, escreva... porque eu, eu já não posso.
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