segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Bolhinhas



foto: Simone Pires

















Tão pequeninas e cheias de história
Lá vão elas, brotando sorrisos
Entre outras coisas que fazem levitar
Sopram segredos
E todos os medos estouram no ar

Tão pequeninas, malabaristas
Se fazem bolhinhas ainda meninas
Em caixinhas dentro do peito
E logo com muito efeito
Explodem em sentimentos

Tão pequeninas e cheias de encanto
Não há quem não corra por todo canto
Pra tentar acarinhar
Pequenos anéis de saturno
Planetas de sabão
Alegrias em órbita

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Parece que foi ontem



foto de Dani Pretto

















Ela estava correndo sobre os trilhos do trem, brincando, ainda muito menina, como sempre fazia todas as tardes logo após o almoço, quando alguém desconhecido parou e lhe disse:
- um dia essa senhora virá ao seu encontro. Aquele rosto nada significou, afinal, quem era aquela velha senhora? Continuou a brincadeira com seu jeitinho travesso de moleca e seu sorriso maroto sem os dentinhos da frente que simpaticamente apelidaram de janelinhas.
A vida foi correndo sobre trilhos. A menina das janelinhas foi ganhando horizontes, encontrando homens e mulheres que jamais havia visto na vida, mas nunca se deparou com aquela marcante imagem de infância. Foi um sonho, pensou.
A menina das janelinhas amava a beleza e a cultuava como uma deusa. Em tempos narcisistas, seu corpo não entregava os números. A moldura era seu templo. A vaidade, seu santuário.

E assim, de tempos em tempos, passaram os vagões. E, dentro deles, multidões. Os olhos, ainda de menina, procuraram pela senhora, em cada um dos assentos. Mas, nada! Ela nunca aparecera.
Dias antes de sua morte alguém bateu à sua porta.
Um homem lhe entregou uma linda caixa com uma carta sobre a tampa.
Ela abriu a carta: A vida inteira você me procurou, mas saiba que eu a acompanho desde

que você nasceu. Talvez agora você já esteja preparada para me ver.
Ela destampou a caixa e tirou um espelho.


domingo, 19 de dezembro de 2010

Passos



foto de Dani Pretto











Se pensas que sigo seus passos te enganas, ah!
Vou fingir, sim, por alguns anos vou.
Deixarei imaginar que serei tua sombra e que tu és meu caminho, ah!
Porém, já conheço minhas pegadas, todas!
Desde antes de aqui aportar.
Te trarei dúvidas, angústias, algumas meias noites.
De meu paradeiro só eu sei e saberei, se me deixares.
E, se não, te enfrentareis como já enfrento a mim mesma, mesmo que duvides, porque

diante de ti devo parecer uma ainda quase ninguém.
Tu és um tolo em crer em carcaças!

Deixe estar. Te entrego minhas mãos. Vamos, leve, se iluda enquanto podes.
A ilusão te carregará adiante, te dará alguns passos diante da vida. Te dará poder.
Sigas em frente, mas não tropeces na hora da verdade. Logo ela se descortinará.
E aí quem sabe não sou eu que te guiarei ao seu encontro. Pareces tão perdido!

Venha comigo, venha! Já andei por essas pedras, não temas! Não são tão tortuosas quanto parecem.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Menina dos olhos



(essa história nasceu assim: de uma foto clicada em Sortelha, Portugal, por Dani Pretto, que mora em Lisboa. Nome da foto: Um cesto de palha trançado com pensamentos)











(ah, essa menina, vê as coisas como ela bem quer)

o sossego tecia paz
ou puro tormento?
aos olhos de quem vê
evidente, o Paraíso!
no coração de quem tece
talvez chamas

enfim,
o cesto
foi tecido
com ódio
ou amor?

em dias exaltantes
tudo possui cor
o verde mais verdejante
o cesto inteiro brilhante
foi tecido com amor

em dias nebulosos
desdém em todo episódio
não vibrante o bastante
o cesto todo medonho
foi tecido com ódio

lentes meras lentes
de aumento
ou distanciamento
de amor
ou dissabor
lentes apenas lentes

a mulher, o cesto, a palha
um tecido, uma tecelã
numa tranquila manhã pensamentos se entrelaçam em fios de palha
num dia turbulento afiadas agulhas espetam asperos fios de palha
o que diz o seu olhar

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Banho

Hoje não. Não poderia ser só um banho. Não, hoje não. Hoje tinha que ser um banho de vó. Num banheiro de vó. Com piso de vó, com cortinas de vó, banheira de vó, tapetinho de vó, espumas de vó, cheiro de vó. Não, hoje não. Hoje não poderia ser nessas casas modernas, nesses apartamentos minúsculos, nem que fossem grandes, não poderia. Hoje tinha que ser nessas casas largas, antigas, azulejadas, tudo grande, tudo espaçoso, banheira branca, canos enferrujados, banheiro a perder de vista. Vaso aqui, banheira lá longe. Hoje nenhum vidrilho pós-moderno tamparia o buraco desse caco que se estilhaçou em mim. Nenhum metal arrojado estancaria essa gota d´agua. Há um cano que se rompeu. Uma vontade imensa de mergulhar naquela fonte que ficou lá trás, bem lá trás, e que nunca mais voltará.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Meditar

Presenças. Apenas e tão somente. Aromas. Cheiro do mato. Cheiro da chuva. Bolinhos de chuva. Céu de chuva. Barulho de chuva. Gotas de suor. Ruídos. Lenha. Serrador de lenha. Fogão a lenha. Cebolas picadas recém colhidas da horta. Cenouras ainda com terra. Pão. Cestas de pão. Casquinhas de pão. Grilos. Crianças. Choro de criança. Chorinho. Sapo. Sensações. Ossos. Bunda. Frio. Quente. Macio. Duro. Pés. Formigas. Formigas nos pés. Formigamento. Peito. Aperto. Nó. Soltura. Espaço. Ar. Amplidão. Domínio da mente. Domínio do pensamento. Sim. Não. Não quero. Quero. Flagrante. Agora não. Domínio do tempo. Ontem foi. Passou. Amanhã mora longe. Aqui. Agora. Possibilidade única. Tangível. Contemplação plenamente possível.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O voo



(essa história nasceu assim: Dani Pretto - mora em Lisboa e fez essa linda foto -
todos os dias admirava essa senhora feliz em sua janela; até que um dia passou e viu
a mesma fechada com placa de vende-se)

















Que estranho, vejam só.
A janela da Lapa bateu asas e voou.
Bem me intrigavam aquelas ventas escancaradas
da manhã ao entardecer.

Mas que outras molduras ornamentariam tão bem
os doces cabelos de algodão daquela bela senhora?
E existiriam plateias mais dignas, fieis e distintas
Que aqueles senhorzinhos trajados com pequenos smokings?
Todos os dias estavam lá, diante da bela senhora, diante da bela janela.
Eles, falando com ela. Ela, assobiando para eles.

Um dia, belo, como todos os outros,
Receberam visita.
O tempo chegou para um, assim como chega para todos os outros.
A janela se foi.
Mas as longas e felizes conversas da senhora com os pombos
Continuam lá.
Ainda dá para ouvir.